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Caixa de memórias: recurso de expressão e elaboração no processo de luto.

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Estudos recentes da psicologia do luto, fundamentados na abordagem dos “laços contínuos” (Klass, Silverman e Nickman), apontam para modelos alternativos aos clássicos e tradicionais, como a Teoria do Apego (Bowlby e Parkes), que defendiam, entre outras coisas, que o enlutado precisava “romper os laços”, “passar pelos estágios”, “desapegar-se” ou “superar” a perda para seguir em frente.

Essa abordagem teórica mais recente afirma que é saudável e natural manter uma conexão interna contínua com a pessoa que faleceu.

A saudade e, consequentemente, a memória são formas de presença afetiva de quem está ausente. Em outras palavras, saudade e memória são respostas emocionais e comportamentais do nosso sistema de vínculos quando uma figura de apego está ausente ou quando um laço afetivo é rompido.

Mesmo sabendo que vida e morte são fenômenos humanos, nunca estaremos preparados para as despedidas e para a finitude. Da mesma forma que sabemos que o que amamos não morre nunca, pois fica guardado em nossa memória e em nossos corações, nem sempre queremos viver essa experiência de lembrar. Esse dilema levou os estudos do luto, por muito tempo, a afastarem tudo o que causava dor e sofrimento.

Precisamos compreender, primeiramente, que o luto consiste em uma experiência individual, biológica, social, cognitiva, psicológica e espiritual. É um desdobramento da experiência do amor. É porque amamos que nos enlutamos e, ao perder, continuamos amando, apesar da ausência física. Sim, o luto é uma forma de honrar o amor, o amado e a história que os une.

Ainda sobre o luto, precisamos compreendê-lo como uma experiência humana que acontece diante de uma perda significativa. Embora seja frequentemente associado à morte de alguém querido, o luto pode surgir diante de diferentes rupturas e perdas que transformam a maneira como a pessoa percebe a própria vida, seus vínculos e o mundo ao seu redor. Uma mudança de cidade ou de país, um desligamento do emprego, uma separação etc. são considerados, entre outros, exemplos de perdas que podem dar origem a lutos não reconhecidos.

É importante saber que o luto não é uma doença, não é uma sequência obrigatória de etapas ou estágios e não possui um tempo determinado para terminar. Também não existe uma maneira única, correta ou universal de vivenciá-lo.

Cada pessoa constrói sua própria trajetória, influenciada pela história do vínculo, pelas circunstâncias da perda, pela cultura, pela personalidade, pelas crenças e pela rede de apoio disponível. Nesse sentido, o luto não precisa ser definido como algo que deve ser simplesmente “superado”.

Trata-se de uma experiência de transformação, na qual a pessoa, aos poucos, pode encontrar maneiras de continuar vivendo, dando novos significados à relação com aquilo ou aquele que perdeu.

A saudade está profundamente ligada ao trabalho de luto e à forma como lidamos com a perda de um objeto amado ou de uma situação significativa.

Assim, a Psicologia e os profissionais especialistas em luto vêm, nas últimas décadas, procurando compreender cada vez mais esse processo e buscando recursos e estratégias para acolher e propiciar uma passagem mais amena pelo processo de luto, já que sabemos que o luto não é doença e que, portanto, não tem cura.

É nesse contexto de acolhimento e empatia que alguns recursos simbólicos têm sido estudados e compartilhados como estratégias que podem auxiliar em determinados momentos dessa travessia. Entre eles, destaca-se a importância de profissionais capacitados para o acompanhamento e desenvolvimento de trabalhos junto aos enlutados, que vão além da terapia de luto.



Trilha da saudade e caixa de memórias.

No Memorial Parque das Cerejeiras, temos muitas ações de acolhimento realizadas por especialistas da área, como palestras mensais de psicoeducação sobre o luto, grupos de apoio às famílias que estão vivendo esse processo, oficinas com as crianças que visitam o cemitério, ações de acolhimento e escuta em datas especiais, como Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia de Finados, e treinamentos com os funcionários que atendem às famílias. 

Recentemente, a partir de um estudo sobre a influência e os benefícios da natureza no processo de luto, foi criado um projeto, a “Trilha da Saudade”, que ganhou divulgação em veículos de mídia como a Veja SP, que, de forma análoga à caixa de memórias, tem como objetivo trabalhar as memórias, as saudades, as histórias e os amores que, embora ausentes, estão afetivamente presentes.

Como recurso de elaboração, a caixa de memórias pode ser construída como um espaço concreto para guardar objetos, fotografias, cartas, pequenos pertences, desenhos ou outros elementos que tenham significado afetivo. Ela pode funcionar como uma forma de preservar histórias, lembranças e marcas de um vínculo que continua tendo importância.

Mais do que guardar objetos, a caixa de memórias pode favorecer a possibilidade de nomear, recordar, contar histórias e reconhecer a importância daquele vínculo. Para algumas pessoas, revisitar essas memórias pode trazer conforto; para outras, pode despertar tristeza, saudade ou emoções intensas. Por isso, a caixa de memórias não deve ser apresentada como uma técnica ou recurso obrigatório, nem como uma solução para o sofrimento. Ela é, antes de tudo, uma possibilidade. Em determinados momentos do processo de luto, quando houver disponibilidade emocional e desejo, a caixa pode se tornar um lugar simbólico para aquilo que permanece.

A caixa de memórias pode acompanhar diferentes momentos da travessia do luto. Às vezes, ela será um lugar de acolhimento da dor; em outras, poderá favorecer a lembrança de momentos felizes, a expressão da saudade ou a construção de novas formas de manter vivo um vínculo significativo.

Como vimos, o luto não significa apagar a história vivida. Ao contrário do que se imaginava, o luto significa, pouco a pouco, encontrar uma maneira possível de seguir vivendo sem precisar deixar de amar, lembrar e reconhecer aquilo que foi importante.

“Que a caixa de memórias possa acolher aqueles que passam por esse processo chamado LUTO.”

Este texto foi desenvolvido pelo Centro de Psicologia Maiêutica em colaboração com o Cerejeiras

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